Autocarro 708

O autocarro 708 tem percurso muito longo já que liga o Martim Moniz ao Parque da Nações e serpenteia por alguns bairros. Assim é uma distração apreciar quem está no nosso ângulo de visão se outra não tivermos.

 

Trazia umas calças de muito boa qualidade, que pelo tamanho se via que não tinham sido feitas para ele. O "anorak" também não condizia com elas já que estava muito surrado, na cabeça um boné (branco) que lhe fazia encaracolar o cabelo da nuca...

Reparei posteriormente que lhe faltavam alguns dentes, mas os óculos escuros que trazia e lhe davam um certo ar desviavam a atenção dessa falta... tentei adivinhar-lhe a idade, talvez 60, 60 e tal.

Provavelmente não teria dado por ele não fora a conversa ao telemóvel em voz tão alta que pôs todo o autocarro em escuta: Ó pá esqueceste-te? Esperei por ti no restaurante, até tinha encomendado um prato para os dois e vinho também! ... Pois ! Sabes, o que preciso é de arranjar uma namorada para me fazer companhia, mas está difícil, ninguém quer ficar comigo!

Baixa a voz, talvez por se ter apercebido que o autocarro escutava e desliga o Tm. Devia sentir vontade de que alguém o escutasse e talvez por isso foi até junto do condutor.

Como estava longe não consegui companhar a conversa mas continuei a apreciá-lo. A conversa, que me parece ser proibida, continuou no entanto  pela distância de muitas paragens... a certa altura o condutor mete a mão no bolso e de lá tira o que me pareceu ser uma sandwich embrulhada em papel de alumínio, provavelmente destinada a comer na pausa do horário e estende-lha. O homem agradeceu efusivamente e a conversa inaudível para mim continuou... a certa altura, tirou os óculos e limpou os olhos, na paragem seguinte saiu...

publicado por naterradosplatanos às 19:09 | link do post | comentar