O amolador de tesouras e o homem das bolas de sabão...

Estava eu no meu 2º ano da Faculdade e parece que só nessa altura aprendi alguns sinais de crise. Eu era uma miúda vinda lá do Nordeste transmontano onde tudo me parecia ser igual ao que sempre tinha sido. A nossa família não tinha dificuldades, embora a minha mãe sempre nos dissesse que não podíamos fazer despesas desnecessárias...

Havia rádio e jornal diário (Primeiro de Janeiro) quer em nossa casa quer na dos meus avós. O meu pai ouvia e lia as notícias mas não as discutia de forma a nós nos apercebermos, apenas me lembra de uma vez o sentir irritado por ter havido aumento da gasolina! Assim caí em Lisboa absolutamente ignorante em política e com o que a ela se associa...

No meu 2º ano tive o professor Orlando Ribeiro como professor e foi com ele que comecei a ver o Mundo de outra maneira!

Lembro-me, como se fosse hoje, do dia em que nos deu como sinal de crise o "amolador de tesouras" aquele que empurrando uma bicicleta, sempre gasta, ia tocando realejo... Estou a ouvi-lo dizer que sempre que o desemprego se instalava ou os salários eram magros havia que recorrer a estas actividades que caracterizam o subemprego.

Hoje, apesar da crise, já não é comum ouvir a flauta que o anunciava, também já não se afiam facas, não se arranjam guarda chuvas e muito menos se deitam pingos nos fundos das panelas!

Mas hoje há muitas outras situações que nos remetem para as dificuldades da vida...

Magro, sujo, desdentado fascinava no entanto as crianças que passavam oferecendo-lhes a possibilidade de verem ali o arco-íris. Dois pequenos paus, um fio e um balde, uma poção mágica. Uma reviravolta com os braços e ali estavam, um dois, três grandes balões de vida efêmera.

Ao lado, uma caixa onde iam caindo algumas moedas... image.jpg

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publicado por naterradosplatanos às 21:18 | link do post | comentar